Você compraria seu filho no supermercado?

por Carla Lacerda

Nunca gostei muito de ficção científica, mas, vamos lá, quero começar hoje com uma hipótese muito louca.

Vamos supor que, neste mundo altamente tecnológico, onde tudo é fast-alguma coisa, a gente pudesse comprar filhos no supermercado – não vou nem falar em aquisições via e-commerce, hein???!!! Mas enfim, você vai até a prateleira e escolhe o herdeiro(a) que vai ter, do jeito que melhor lhe apetece: cor da pele, dos cabelos, dos olhos…

Tá, vamos imaginar um pouquinho além: vai que Deus, muito camarada com você, ainda lhe dá a chance de escolher traços da personalidade do seu filho, a universidade onde ele vai estudar, as viagens que vai fazer… Hum, ficou interessante? Legal, então bora continuar…

Depois de muito pesquisar, analisar todos os prós e contras, de modo que você fique em vantagem sempre - claro, óbvio, of course! -, você decide o que comprar. Todo(a) feliz empurra o carrinho rumo ao caixa quando, sem querer, vê um novo ‘modelo’ de filho com as seguintes etiquetas pregadas e escritas com aquela caneta Bic bem degastada, tamanho de fonte mínimo: com autismo, com síndrome de down, com microcefalia, com paralisia cerebral, surdo, cego… E aí? Você trocaria a sua compra?

Eu sei e concordo com você, o teor dessa história pode beirar o surreal. Mas, acredite, ela faz parte de uma marca que carrego comigo. Explico.

Aproximadamente quatro meses depois de ter recebido o diagnóstico de que o João Lucas está no espectro do autismo, fui conversar com o pastor da igreja que eu costumava frequentar – digo costumava porque, infelizmente, deixei de ir em função da correria do dia a dia. Justificativas pouco sólidas à parte, o fato é que eu estava ansiosa, mas extremamente feliz, com a chegada daquele domingo.

Ao final do culto, após conversar com alguns membros da igreja, o pastor nos vê. Eu e o Thiago, entre sorrisos de nervosismo, nos aproximamos dele.

E aí conversa vai, conversa vem… questionamento de pais aflitos vai, questionamento de pais aflitos vem… e…

“Vamos supor que, neste mundo altamente tecnológico, onde tudo é fast-alguma coisa, a gente pudesse comprar filhos no supermercado…

Mas e aí, Carla, você escolheria o João Lucas?”

Ops, deu ruim! Não me lembro se a garganta secou, se a mão tremeu, se a voz falhou, mas antes que qualquer sinal inconveniente pudesse ser interpretado, me saí com essa:

— Claro, lógico, pastor!!!!

Da sua sabedoria de mais de 50 anos de estrada, com uma esticada serena dos lábios, o pastor repetiu a pergunta:

— Mesmo?
— Ann, hum, é é é é…
— Sejamos sinceros um com o outro! Se pudesse escolher, você não pegaria!

Comecei a desmontar. Como eu me conhecia tão mal! Tentei insistir em negar o inegável.

— É, verdade, acho que eu pegaria o JL, mas sem o autismo. Sim, é isso, pastor, gostaria de ter o JL, meu filho, mas sem o autismo que o impede de falar ‘eu te amo’, sem o autismo que atrai olhares preconceituosos, sem o autismo de movimentos repetitivos e rotinas fixas, sem o autismo, sem o autismo, sem o autismo - seria o que teria gritado se as palavras não começassem a se afogar nas lágrimas que desciam rosto abaixo, feito cascata…
— Então você está me dizendo que seu filho sobraria na prateleira? Ninguém o pegaria, você não o pegaria! Porque o João Lucas sem autismo não é o João Lucas; o João Lucas sem autismo não existe.

PQP! Como costuma dizer minha irmã mais nova, agora f**** a p**** toda! Se eu tivesse coragem de xingar, era isso que sairia entre um urro e outro, porque naquele momento eu perdia totalmente o controle sobre a minha vulnerabilidade, eu não conseguia conter mais aquele choro soluçado, que jorra das entranhas, da alma… Meu Deus, eu não sou aquela mãe que eu achava que era! Cadê o meu amor incondicional? Cadê? Cadê? Cadê a minha capacidade de falar eu te amo mesmo que não ouça o mesmo? Cadê, Carla, cadê, Carla?

Chegar a essa constatação – “de que eu idealizei, não somente o meu filho, mas também a mim” - doeu demais, doeu de sangrar, mas, paradoxalmente, foi extremamente libertador. Sou grata demais a Deus por ter tido essa conversa sincera com o pastor naquela manhã. Entendi, de uma vez por todas - espero que sim! -, que todos somos totalmente imperfeitos.

Quem eu julgo ser pra escolher meu filho? E se o JL também tivesse a chance de escolher a mãe na prateleira do supermercado, será que ele ficaria comigo? Com todos meus defeitos, medos e indecisões? Ou será que, a caminho do caixa, me trocaria por uma mãe melhor?

Entre essas interrogações, coloco uma das falas da Dr. Jane, minha terapeuta, que citei no texto passado, O poder da vulnerabilidade:

“Carla, quando você não quer sentir coisas ruins, você acaba abrindo mão dos sentimentos bons também, eles ficam aprisionados dentro de você”.

Sim, eu penso e sinto coisas ruins. Todos nós. Como bem exemplificou a colega Erika Lettry em seu texto de estreia aqui no blog, Aceitar a imperfeição nos ajuda a evoluir:

“O garoto olhou intensamente nos olhos de seu avô e perguntou: ‘E qual deles vence? (se referindo ao lado bom e ruim que todos temos).

Ao que o avô sorriu e respondeu baixinho: aquele que eu alimento.”

Descobri que, no meu caso, escrever, praticar algum exercício físico, ler livros e assistir a filmes que edificam, são ferramentas que canalizam minha agressividade para longe das relações interpessoais.

E ainda tem um conselho do apóstolo Paulo do qual gosto muito:

“Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.” Filipenses 4:8

E você? Já parou e refletiu sobre qual lado tem alimentado com mais intensidade e de forma mais constante no seu dia a dia? Porque a escolha, ah, a escolha, essa sempre é nossa.

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