Falar sobre nossas dores é um ato de resistência

por AnaLu Oliveira

Esconder as rugas, secar as lágrimas, engolir o choro, mascarar as gordurinhas, retirar pelos. Não pode chorar, não pode sofrer, tem que superar isso, tolerar aquilo. A todo o momento, a sociedade mostra que não sabe lidar com as coisas que destoam do padrão felicidade plena, determinado sabe lá Deus por quem.

Desde que meu marido foi diagnosticado com depressão, tenho percebido o quanto falar sobre o assunto é um ato de resistência a esse padrão que nos empurram goela abaixo. Quando ele decidiu falar sobre o assunto, muita gente se chocou. Como assim, um cara bonito (sim, ele é lindo!), jovem e com estabilidade no trabalho estava depressivo?

Achei melhor buscar ajuda para lidar com a depressão dele e,de quebra, resolver algumas questões minhas (que serão temas aqui logo logo). E foi a melhor decisão da minha vida. Tem me ajudado muito. Porque a depressão não é algo fácil de lidar, de enfrentar. Isso vale para o depressivo e também para quem está com ele.

Quando o marido decidiu falar, percebi que muitos amigos (a quem sou imensamente grata) ofereceram ajuda, perguntaram como ele se sentia e a pergunta mais importante: o que podiam fazer para ajudar.

Não há receita única para ajudar depressivos. O marido fica bem quando é ouvido, mas sei de pessoas com depressão que ficam bem quando são apenas abraçados. Ou quando saem para comer.

Eu tive que aprender a diferenciar ajuda de salvação. Porque eu queria salvá-lo. Eu queria livrar meu marido desse mal. Eu achei que pudesse ser a Mulher-Maravilha e com o meu laço, resolver tudo isso. Mas, foi tão dolorido, tão triste, que ao invés de ajudá-lo eu estava deixando meu marido ainda pior. Vou falar disso em posts futuros.

De algumas pessoas, meu marido ouve que isso é coisa da cabeça dele, que é falta de Deus, que ele precisa trabalhar mais. Teve até quem dissesse que cada vez que ele falava sobre o assunto, ele fortalecia a “tristeza” dentro dele. O melhor era ficar calado e esquecer que tinha depressão.

Fica a pergunta: tais atitudes são frutos de uma sociedade que se nega a lidar com as coisas ruins e tristes ou de pessoas que não se compadecem com os males alheios? Por que é tão difícil aceitar a dor do outro? E por que é tão difícil lidar com dores? Qual a razão para sermos felizes no estilo “padrãozinho ocidental” o tempo todo?

Se alguém tiver alguma resposta pra estas perguntas, me conta por favor. Talvez isso reduza minha temporada na terapia (e a do marido também). Enquanto isso, sigamos em nossas resistências e lutas. Um dia por vez.

Fotos: Pixabay

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