16 anos com ele

por Carla Lacerda

Aos 9 anos inventei que queria uma câmera para fotografar os acidentes automobilísticos que, porventura, pudessem ocorrer no Eixão, em Brasília (não, não me perguntem de onde surgiu esta verve sensacionalista precoce, porque, de verdade, não faço a mínima ideia. O que posso atestar, com certeza, é que ela não existe mais, rs). Mas, enfim, ganhei do Popó uma Kodak, e toda satisfeita, metida à la Camila Abdalla - aqueeeeeela personagem de Maitê Proença na novela Sassaricando, lembram-se? –, ficava à espreita na 204 Norte pra ver se registrava algo interessante.

Tinha gosto pelo inusitado, pelo repentino, por aventuras que, aos poucos, passaram a ser materializadas não mais por imagens, mas por meio do mundo das letras. Eu começava a me empolgar com a escrita e encasquetava com a ideia de ser jornalista. A Olivetti dos meus pais, de repente, foi parar na minha estante. Na minha cama. Na mesinha do meu quarto. No banheiro? Não, não, nem tanto! Mas o barato é que eu podia contar com um público de leitores fiel – restrito também, admito -, mas fiel. Popó e Reca. Reca e Popó. Já estava bom demais da conta, sô!

E eles me ouviam. E davam importância ao que fazia. Podia ser uma folha chamex onde eu colava umas figuras da Revista Veja para escrever sobre animais em extinção. Ou a redação sobre cartão de crédito que chamou a atenção da professora da 4ª série. Um texto sobre os sem-terra, uma dissertação do Ensino Médio. Dois livros de ficção (será?) incompletos, escritos aos 11 anos, em que curiosa e inexplicavelmente, a protagonista tinha minha idade, rs.

E se faltava inspiração? Opa, a gente ia pra fazenda. Pra eu ter contato com a natureza e ter aquela ideia brilhante? Nananinanão. A gente ia porque meu pai gostava mesmo. Mas como eu não era muito afeita – confesso, nada afeita – à lida bucólica, me entupia de livros e revistas antes de cruzar a porteira.

Mas voltemos ao texto. Este. Não os de outrora. Fico feliz em lembrar como meu pai sempre foi presente na minha vida estudantil. Quando ainda menina descobri o significado da palavra primogênita, ele passou a me apresentar assim aos seus amigos. Quando tirava nota boa, ele enchia a boca pra falar que eu era uma das primeiras da classe. Quando fazia simulados no 1º ano como preparatório para o Programa de Avaliação Seriada (PAS) da Universidade de Brasília (UnB), ele me dava dicas que até hoje coloco em prática.

“Comece sempre pelas questões mais fáceis, porque se deixá-las por último e estiver com a mente cansada, você pode perder até estes pontos que estariam garantidos”.

Queria te dizer, pai, que tem dado certo, viu? Passei no vestibular para jornalismo. Passei num concurso para analista de comunicação. Passei num processo meritocrático. Continuo escrevendo. Mesmo quando acho que não vou dar conta. Mesmo quando acho que não vá ficar bom. Mesmo com erros, dúvidas, inseguranças. Continuo, mesmo agora, com um nó na garanta e lágrimas nos olhos, porque um dia o senhor parou, olhou o que eu fazia, vibrou e sorriu. É nisso que sempre vou acreditar!


Esse texto foi escrito há três anos, em 2014. Ele faz parte de uma série que criei para relembrar os 16 anos que convivi com meu pai, Carlos Póvoa do Nascimento, ou simplesmente, Popó. Ele faleceu há 20 anos, em 1997, vítima de um câncer no pâncreas.

Foto: vuralyavas | pixabay

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