Vamos compartilhar o que é bom

por Helen Fernanda

Por uma internet com menos ódio e mais flores.

Creio que vem lá da adolescência essa nossa necessidade desesperada de se opor, de ser do contra, de "denunciar" o que tá errado, de falar mal do que a gente não gosta… Você já foi adolescente e provavelmente voltou a conviver com algum adolescente depois de adulto, então você sabe bem do que estou falando. No colégio, por exemplo, a pessoa que nunca fez mal para ninguém, mas da qual ninguém gostava por causa da sua forma de agir ou falar, também era o assunto favorito no recreio.

Mas parece que a adolescência dura mais décadas aqui na internet. Muita gente que se diz "adulta" perde tempo lendo, ouvindo, assistindo, comentando e, pior de tudo, compartilhando justamente aquilo do qual diz não gostar. Infelizmente você deve conhecer dezenas e talvez centenas de pessoas assim. Um tuíte recente da jornalista Mariana Gross, apresentadora do RJTV, fala exatamente dessa situação:

Mariana, eu também não entendo. Mas não sofra nem leve para o lado pessoal porque essas pessoas têm um problema muito maior com si próprias do que com você ou com a Globo.

Para termos vidas mais felizes e satisfatórias, precisamos usar nosso próprio tempo de forma mais proposital e inteligente. No texto "O minimalista e a televisão" falei um pouco sobre isso e dei até dicas para transformar a "vilã" em aliada, tanto no lazer como nos estudos.

Praticantes de ódio

Mas o tuíte da Mariana não tá falando só sobre assistir TV. O problema maior e com consequências piores é desperdiçar tempo nas redes sociais falando mal do que detesta. Por que existem tantas pessoas desperdiçando tempo e energia mental praticando o ódio?

Os motivos são muitos, mas sem dúvida o efeito manada é decisivo. Assim como bois e elefantes, somos mamíferos que vivem agrupados e por isso pertencemos a determinadas manadas, por escolha ou circunstância: família, tribo, grupo, clube, partido, classe social…

E são muitas as formas de praticar o ódio na internet, geralmente de forma coletiva ou com a validação de outras pessoas.

Por uma internet com menos ódio e mais paisagens bonitas.

Se um líder de manada começa a publicar tuítes xingando um cantor que supostamente furou fila no despache de mala do aeroporto, pode ter certeza que dezenas de membros da manada vão comentar, compartilhar e ajudar a repercutir a ofensa sem pensar nas consequências e muito menos questionar os fatos.

Conheço pessoas que seguem seus desafetos nas redes sociais só para ter assunto nas próprias redes sociais: falar mal de cada postagem de cada pessoa odiada.

Tem também gente que curte quando alguém posta uma foto fazendo piada com um defeito físico de outra pessoa, sem se perguntar se a pessoa fotografada autorizou ou não o uso da própria imagem com essa finalidade.

Semana passada vi várias criaturas bem-intencionadas falando mal dos fotógrafos que fazem ensaios sensuais com a Millie Bobby Brown (13 anos), mas não sem postar junto as fotos "sensuais" da atriz. Ou seja: se posicionaram contra o problema no texto, mas fizeram do jeito errado porque ajudaram a divulgar ainda mais as fotos que não deveriam ter sido feitas.

Toda essa desinteligência coletiva só pode ser fruto do efeito manada porque é quando a gente vai "na onda" do grupo e abre mão de raciocinar.

Vamos praticar o amor

Não temos como levar bilhões de pessoas a criarem o simples hábito de usar o cérebro antes de comentar/compartilhar/curtir qualquer asneira na internet, mas podemos começar por nós mesmos.

Por uma internet com menos ódio e mais gatinhos.

Se você não gostou de um texto ou vídeo na internet, não curta, não comente e não compartilhe. Fazer um tuíte falando mal do autor, do site ou do texto só vai ajudar a divulgá-lo ainda mais.

Se você segue uma pessoa ou até mesmo uma entidade que publica muitos posts ofensivos, pare de seguir o perfil ou silencie (possibilidade do Twitter).

Siga páginas e perfis que falam sobre as coisas das quais você gosta. Evite seguir páginas e perfis que foram feitas só para falar mal de algo ou alguém.

Tenha algum propósito nas suas redes sociais. Divulgue causas nas quais você acredita, dê dicas que vão ser úteis para as outras pessoas, elogie pessoas e entidades que merecem ser elogiadas, divulgue o seu trabalho, compartilhe textos bonitos e inteligentes…

Quer reclamar de alguma coisa? Tente transformar sua reclamação em dica, assim você ajuda outras pessoas que possam ter o mesmo problema.

Não tem nada original a dizer que possa ser útil ou engraçado para alguém, não diga.

Passe a usar a internet para o bem e você verá como é mais satisfatório e produtivo do que usar para o ódio.

Seja um revoltado com causa

Antes de você achar que eu quero todo mundo se aliene e finja que o mundo lá fora não tá pegando fogo, é o contrário.

Podemos e devemos usar a internet para nos indignar, só é preciso usar a inteligência para não confundir nossa revolta contra pessoas e instituições que nos roubam e oprimem com ódio gratuito contra pessoas aleatórias que também são vítimas da situação.

Por uma internet com menos ódio e mais união.

Dando um exemplo bastante prático, não gaste voz nem dedo ofendendo os fãs do Político B, compartilhe informações que ajudem a diminuir a ignorância dessas pessoas. E se você fizer isso sem usar termos chulos e ofensivos, verá que vai conseguir convencer muito mais do que agindo como um fanático de futebol que acha que vai ajudar o time xingando a torcida adversária.

Há várias formas inteligentes de se indignar, geralmente com estudos, diálogos, manifestações, ações e apoiando causas que fazem real diferença na vida de pessoas que são marginalizadas em consequência de grandes problemas, como corrupção, intolerância e concentração de renda, só para citar alguns exemplos.

Usar a internet de forma positiva e amorosa, mesmo quando precisamos nos opor a uma determinada situação, não é tão difícil quanto alguns querem fazer parecer. Dividir e conquistar é a estratégia dos poderosos para nos vencer. Só quando a gente se dá conta disso consegue unir forças para lutar do lado certo.

Fotos: Pixabay

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