Nossa felicidade ❌ expectativas alheias

por Helen Fernanda

Muito se fala sobre meditação, autoconhecimento e propósito de vida, mas hoje vou falar de outro ângulo: felicidade e expectativa alheia.

A expectativa alheia nos persegue desde o nascimento. Esperam que aprendamos a engatinhar, a falar, a andar… Comer sozinha, usar o banheiro sozinha, tomar banho sozinha, ler a tarefa de casa sozinha… São muitas as expectativas que uma pessoa gera desde o início da vida.

Toda essa ansiedade de nossos pais, professores e demais cuidadores nos afeta em algum sentido. Na dose certa, essa expectativa é a motivação da qual precisamos para nos desenvolvermos de forma saudável e feliz. Mas na idade adulta, temos que buscar nossa própria felicidade e só vamos encontrá-la se deixarmos de nos guiar tanto pelas expectativas alheias.

Lembrando que nossa fonte de felicidade já está dentro de nós, mas escondida sob uma serra de tralha que inclui orgulho para os pais, opiniões dos colegas, aceitação dos amigos, status social, poder aquisitivo, credibilidade profissional, etc.

E é claro que deixar de nos guiar pelas expectativas alheias e usar como bússola a nossa própria inteligência - que alguns chamam pelo bonito nome de luz interior - é um processo pelo qual passamos durante toda a vida. Definitivamente, não é algo que aprendemos da noite para o dia.

Quando adolescentes não temos plena consciência disso, mas temos que aproveitar a expectativa dos pais enquanto estamos em nossa fase de formação porque é isso que nos vai propiciar a independência para descobrir quem realmente somos.

Pra você compreender melhor o que quero dizer, vou citar como exemplo minha própria família. Hoje, somando meus primos maternos e meus primos paternos, somos mais de dez servidores públicos efetivos e estáveis em diferentes órgãos federais, distritais e estaduais de todo o Brasil. Mas também fico pensando até que ponto nós realmente tínhamos vocação para o serviço público, até que ponto nos esforçamos nos estudos para satisfazer as expectativas de nossos pais e tios?

Como eles tiveram muitas dificuldades na vida e sempre nos contaram essas histórias, eles queriam que tivéssemos a tranquilidade que eles não tiveram e depositaram em nossa essa expectativa. Naquela fase em que estávamos, recém-formados mas sem um tostão no bolso, foi ótimo termos usado as esperanças e dificuldades de nossos pais como combustível para fugir da traiçoeira iniciativa privada.

Mas ainda temos entre 30 e 40 anos, então talvez não queiramos morrer servidores públicos. Ao mesmo tempo, é essa estabilidade que nos permite descobrir quem realmente somos. Enquanto muitas pessoas da minha idade - e até mais velhas - estão ocupadas demais tentando conseguir dinheiro pra pagar o aluguel, tenho tempo para me autoconhecer além do meu status profissional.

Deixando minha família de lado, independente de como as expectativas de seus pais e cuidadores foram úteis pra você se desenvolver e chegar onde chegou, você não pode esquecer que merece ser plenamente feliz. E pra ser feliz, a gente precisa se conhecer. E pra se conhecer, a gente tem que ter um tempo só nosso: algumas horas na semana, de preferência alguns minutos todo dia dia, em que estejamos acordados, sóbrios, livres de obrigações e, de preferência, livres de interferências externas. É nesse período que nosso cérebro vai se organizar e se clarificar. Vai ficar cada vez mais evidente:

  • o que estamos fazendo pela própria felicidade e o que estamos fazendo para agradar os outros, inclusive nossos pais;
  • o que os outros acham de nós e o que nós realmente sabemos sobre nós mesmos;
  • o que estamos fazendo só porque a sociedade disse que era assim e o que realmente faz sentido para nós;
  • o que nos traz alegria pura e genuína e o que apenas nos dá alívio por ter cumprido uma imposição alheia.

Ultimamente se fala muito sobre meditação, bullet journal e diário. Há alguns anos a moda eram os livros de colorir. Se você tem seu próprio quintal ou uma espaçosa varanda, jardinagem é uma opção interessante. Crochê, colagem, origami, esporte ao ar livre, leitura ao ar livre… as possibilidades são muitas.

Eu, que passo muitas horas por dia sozinha, em silêncio e acordada, tenho vários momentos de introspecção ao longo do dia: quando estou estendendo roupa no varal, quando estou lavando vasilhas, quando estou fazendo cafuné nos meus gatinhos, quando estou jogando no tablet, durante minhas refeições… Só sinto necessidade de meditar quando tenho uma tarde muita agitada ou alguma atividade noturna que me impede de voltar para o modo contemplativo antes de dormir.

As pessoas extropectivas precisam ficar atentas: como sentem necessidade de se relacionar com as pessoas o tempo todo, inclusive pelo celular, precisam se lembrar de reservar tempo para clarificar a mente.

Já nós, introspectivos, nos sentimos tão bem olhando pra dentro de nós que queremos ficar assim pra sempre. Mas como não somos eremitas e ainda precisamos nos relacionar com outros seres humanos para ter casa e comida, temos que nos esforçar para sair da toca e sermos úteis lá fora, o que também vai nos trazer satisfação.

E também por não sermos eremitas, nunca seremos 100% livres das expectativas alheias. A vida em sociedade exige o cuidado pelo próximo e isso gera algum nível de expectativa e colaboração entre todos nós. O que aprendemos com o tempo é a dosar isso para não comprometer nossa essência, nosso propósito e nossa felicidade.

E, como eu já disse, é um processo constante e para toda a vida. Mesmo quando encontramos nossa fonte interior de felicidade, uma palavra ou um acontecimento pode nos fazer duvidar de tudo que já sabíamos sobre nós mesmos. É um exercício diário e sem certificado de conclusão de curso. Mas é um exercício prazeroso que nos traz alegria.

Dizem por aí que "a felicidade está no caminho e não no destino". Acho que é uma frase clichê e que não se aplica a tudo, mas no caso do autoconhecimento, costuma ser verdade.

Até mais!

Fotos: Pixabay

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