Desapego material: altruísmo ou hedonismo?

por Helen Fernanda

Vira e mexe, faço doação de livros que acho encaixotados aqui ou na casa da minha mãe. Livros que, de tão bem guardados, eu não me lembrava que tinha. Logo, doá-los não é nenhum sacrifício pra mim, ao contrário: eu tenho aquela sensação gostosa de dar um presente pra alguém, mas sem gastar nenhum centavo.

Toda vez que faço isso, as pessoas que ganham os livros me agradecem e perguntam se quero algo em troca, mas eu só agradeço de volta e digo a verdade: ganhei espaço na casa.

Outras pessoas também dizem, quase se desculpando, que queriam ter a mesma coragem que eu. Eu respondo que não precisei de coragem nenhuma e que estou feliz porque o livro encaixotado, que eu jamais leria de novo, volta a ter utilidade para alguém.

Em um mundo doente que valoriza a ostentação de dinheiro e bens materiais, a pessoa que consegue se desapegar de qualquer coisa (sem pedir dinheiro em troca) é vista como mais evoluída, superior, altruísta e blá-blá-blá…

Mas a verdade é que a gente apenas optou por viver de forma mais consciente. Sem falar que é muito melhor viver em uma sociedade onde as pessoas dividem o que sobra.

Livros encaixotados não me trazem alegria

Se você leu algum livro da Marie Kondo, já está familiarizado com essa dica de manter em casa apenas aquilo que traz alegria, seja por seu valor sentimental ou por sua utilidade.

Livros encaixotados não me trazem alegria. O que me traz alegria é saber que aqueles livros, antes encaixotados, agora estão sendo lidos por outras pessoas.

Se você gosta de manter uma prateleira de livros em casa para que você, familiares e hóspedes possam ler e reler à vontade, você já está fazendo o que te traz alegria e, ao mesmo tempo, dividindo essa alegria com outras pessoas.

E, mesmo que seus livros não estejam servindo para nada, ninguém está mandando você se desapegar deles. Não é porque outras pessoas doam que você é obrigado a doar também. Desapego só é desapego quando é de livre e espontânea vontade.

Comece com familiares e amigos

Antes de mais nada, é preciso sentir necessidade de dar um destino melhor para nossos livros e demais objetos. Se você já assistiu algum programa de TV sobre acumuladores, por exemplo, já deve ter visto que destralhar a casa contra a vontade do acumulador não funciona a médio e longo prazo: ele volta a acumular.

É preciso um "clique" para que a pessoa se desfaça de suas coisas por vontade de própria. Esse clique pode vir da experiência de um amigo, de um livro ou de um texto como este.

Se você já teve o clique, mas ainda tem dificuldade, sugiro sempre começar com as pessoas queridas. Nesse caso, a sua doação deixa de ser uma simples doação e vira um presente que contém sentimento.

Abra a caixa, pegue o livro, leia o título, pense em uma pessoa querida que poderia gostar daquele livro. Tire uma foto da capa, mande para a pessoa perguntando se ela já leu.

Se forem muitos livros, anuncie para amigos em seu WhatsApp ou perfil do Facebook.

Quando as pessoas queridas se manifestarem pedindo os livros, você vai sentir alegria. Quando entregar o livro, mais alegria e também uma sensação boa de se sentir mais leve e mais útil.

Você vai se sentir tão bem que vai perceber que quem se desapega talvez seja mais hedonista do que altruísta.

Os livros são só o começo

Eu usei o exemplo dos livros porque é o que eu mais tinha sobrando quando comecei a destralhar. E quando passei a usar Kindle fiquei ainda mais desapegada de livros impressos.

Mas também estou sempre doando roupas, calçados, cosméticos, perfumes, canetas, cadernos, utensílios domésticos… Mesmo com poder aquisitivo baixo, é incrível a quantidade de coisas que me sobram, algumas porque ganhei sem precisar, outras porque parei de usar.

E o prazer de doar é tão grande que uma hora a gente precisa de um freio para não se desfazer também de bens que ainda são essenciais e úteis.

O desapego material não é só material

Sempre que a gente abre mão um bem material, percebe que foi muito mais que isso.

A gente se livra também do acúmulo irracional, do orgulho de ostentar, do medo de faltar, da supervalorização do "ter".

E se livrar de toda essa tralha emocional nos dá mais clareza para identificar o que realmente nos falta. Usamos objetos para tentar preencher vazios na alma. E só quando temos consciência desses vazios podemos preenchê-los da forma correta.

Prepare-se para se transformar na sua melhor versão!

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